terça-feira, 4 de junho de 2013

Infância em Greve!!!


Convidei o Psicólogo Franz Murillo para falar sobre o desenvolvimento infantil e ele me enviou esse texto bem diferente do que eu esperava, mas surpreendentemente MARAVILHOSO!!!  

fonte: google
 

 "A convite da Mariana, convite este que recebo muito contente, compartilho com vocês alguns pensamentos sobre o que tem sido falado sobre a criança ultimamente, principalmente do barulho que as crianças tem feito nas escolas. Os debates sobre o desenvolvimento infantil percorrem diferentes espaços – da educação, da saúde, da política -, e em alguns momentos, mostram-se bastante controversos.

 A infância, em particular, tem ocupado um espaço significativo nos meus estudos enquanto psicólogo. E apesar de ter gostado de ser criança, de gostar de criança, e trabalhar com crianças, tenho recebido em meu consultório, histórias interessantes sobre o quanto o infante tem assustado e bagunçado a família dos tempos de hoje.

A eclosão da infância de fato não é nada sutil. Ela é como deve ser: agitada, bagunceira, arteira, desafiadora, que objetiva uma única coisa: prazer. É desse montão, que a criança vai atuando com o que lhe é mais legítimo e, atualmente, um tanto efêmero na sua vivência: a exploração do mundo externo – do lado de fora. Este momento se dá a partir do ponto em que o corpo tendo um mínimo de um contorno, lança o bebê às destrezas da sua coordenação motora, com ajuda da força de seus braços e a potência de suas pernas, para começar a engatinhar.

Nos primórdios do seu governo, do lugar do rei, como já dizia Freud, o pequeno já fazia um uso muito importante dessa empreitada que daria na aventura de se tornar criança. O bebê aprende a pegar o que lhe era possível com a mão, e levar o mundo à boca. Mas sendo um sujeito esperto e perspicaz, ele se depara com a dúvida de sair do trono e buscar respostas para: “O que será que tem mais pra lá?”.

E por aí vai: engatinha, puxa cadeira, come sujeira do chão, e os pais loucos atrás. Quando anda, tropeça; alcança lugares mais altos. Logo, quebra copo, enfeite de natal, puxa o rabo do animal - É tanta excitação e novidade, é tanto poder, que os pais o destronam, levantando a bandeira do “Não!”. Não pode chupeta, não pode dormir com a mamãe, não pode mamadeira, não pode mexer, não pode por na boca. Não pode, não pode, não e não, não é não! E aí ele é bem vindo à infância. Lidar com esse bombardeio de não, é que vai inserindo a criança no mundo das regras, e localizando-a na sociabilização: eu desejo algo, mas o outro também deseja algo de mim.

O pequeno destronado parte, então, de fato, para a exploração do mundo a fora: da escolinha, da casa dos outros, do colo do pai, e tentar questionar tudo aquilo que teve de abdicar e tudo aquilo que pode ainda (re)conquistar - a criança fala, fala e fala. Canta, escreve, desenha. Começa a ver nos gibis aquilo que ela própria vive. A criança conta: 1,2,3,4, pois afinal “Só pode 1.”. Ela desenha, colocando todas essas mudanças e experiências próprias de um lugar muito louco, chamado infância.

Para dar tempo a tudo isso, tem que ter gente disposta junto. Tem que ter, além de crianças se aventurando no mesmo barco, adulto com muito amor, paciência e tempo pra deixar isso se organizar e dar campo para a construção, então, da identidade desse sujeitinho. O que acontece hoje, é que falta adulto e tempo. Não falta tinta, nem lápis de cor, nem fantoches, nem desenhos animados, nem letrinhas de EVA, nem bola, nem pipa. O mundo dos adultos ficou tão absurdamente fora de mão da infância, que a criança ficou presa no trânsito alheio.

Acredito que o que vem assustando os pais, nem seja a hiperatividade, o déficit de atenção, ou os jogos de vídeo-games violentos, mas talvez ter de lidar com as culpas de não poder participar disso tudo – de poder por eles próprios nomear a agitação do filho como normal, de nomear o déficit de atenção, na verdade, como alguém muito bem atento àquilo que lhe é prazeroso, e de poder sentar com o filho na frente da TV, e jogar um mortal kombat.

As crianças, quando se encontram na escola, náufragos do mesmo barco, acabam então, não podendo ser subjetivadas pelos pais, sendo categorizadas pelos professores e pela medicina atual.
Quando o Digimon vira Kumon, ninguém gosta. Ainda mais quando essas mudanças vêm de forma tão desapropriada, que nem os pais vão entendendo porque, mas vão seguindo às orientações dos especialistas, pois questionar o suposto saber, pouco se sustenta se pouco se sabe.

Por isso, acredito, que a grande maioria das crianças encaminhadas para atendimento, precisam unicamente brincar. E os pais, nada mais do que receber carta branca para brincar junto.
O papo aqui é descontraído, sem sermão de psicólogo, mas dando muita importância para o aprendizado que vem da relação familiar, do tempo com qualidade, e de muita brincadeira. É isso que criança reivindica! E eu, particularmente, apoio esse movimento! "

Franz Murillo, é Psicólogo e Psicanalista em formação, e atua com crianças, adolescentes, adultos e famílias em instituição e consultório particular, gosta de café, mas ainda ama Toddynho.

Gostaram? E na sua casa a infância está em greve?

Os destaques no texto são de minha autoria e fizeram Eco em mim. É bom pensar que não tem nada de errado ou inadequado nas bagunças ou nas manhas das crianças, ao contrario faz parte da INFÂNCIA.
 
fonte:google

Bjs