segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Quando o Corpo Consente

Dessa vez eu convidei minha amiga querida e Enfermeira Obstetra Michelle Gonçalves da Silva, ela que me ajudou muito quando eu estive grávida com informação, acolhimento e carinho. E como uma pessoa apaixonada pelo que faz fala, hoje, sobre parto humanizado.

"A maternidade é percebida pela maioria das mulheres como o início de um novo ciclo, um marco diferencial, que consagra a abrangência do papel feminino, embora a maioria das pacientes a associe com dor intensa e sofrimento, porém sem dúvidas é um momento de grandes expectativas. Apesar de fisiológico, o trabalho de parto pode sofrer interferências do estado emocional, da cultura, dos valores, da história da mulher e por fatores ambientais.

Dar à luz é uma aventura pessoal! São nove meses de incerteza, de alegria, de ansiedade e finalmente de triunfo. E tudo isso não quer dizer que esta caminhada será fácil, porém como dizem certos sábios  filósofos 'nem sempre o mais fácil será o melhor caminho'!!!

Diante das normas consensuais da medicina, não renuncie à sua autonomia. Se sua gravidez não apresenta sinais de patologia, não se deixe impressionar com o aparato do progresso, sempre pronto para interferir!!! 

A medicina é contraditória em todas as outras especialidades (exceto a obstetrícia) procura-se o resgate à hábitos mais saudáveis e naturais, contudo quando chegamos ao parto nos defrontamos com profissionais que pregam a cesariana desnecessária por diversos fatores: falta de preparo profissional;falta de tempo; questões financeiras, já que o médico recebe mais por fazer uma cesariana; questões Institucionais, pois um hospital sempre  irá preferir uma paciente que chega com hora marcada e uma hora depois deixa a sala de parto pronta para outro procedimento, enquanto que no parto normal a mulher pode ocupar esta sala por longas 12h.

Outra questão mítica é que a cesariana sempre salvará vidas. Isto nem sempre é verdade. Segundo a Organização Mundial de Saúde é considerado normal uma taxa de cesárea até 15% (a taxa brasileira ultrapassou 50% no ano passado - o Brasil é o país que mais faz cesárea no mundo) sendo que alguns hospitais particulares possuem taxas acima dos 90%. 

O que a população não sabe é que muito dos problemas respiratórios dos bebês que nascem de parto cesárea agendado é por conta dessa tal milagrosa cesárea. É por não permitir que seu bebê dispare uma descarga hormonal e metabólica dizendo 'sim estou pronto para nascer'!!!

Mas, nós mulheres  também temos a nossa parcela de culpa, pois hoje temos informações de fácil acesso com todos os benefícios do parto normal  para nós e para os nossos bebês, porém não assumimos esta responsabilidade por medo. 

O hábito de desconfiar em nossos olhos nos deixam desconcertadas, preocupadas com aquilo que é chamado o Mistério da Vida, pois o parto ainda é um mistério para a própria medicina. E o que se passa na escuridão da parte interna do nosso corpo nos defronta com a escuridão  da nossa mente. É muito fácil confiar todos os poderes a quem supostamente sabe (os profissionais, um exame de sangue, um ultrasson). Qualquer coisa nos inspira mais confiança do que nós mesmas. Enquanto isso, deixamos escapar o essencial. Nos tornamos passivas e submissas, optando por deitar, desistir e deixar-nos adormecer e anestesiar. Como imaginar que o corpo de tantos mamíferos humanos não seja capaz de dar passagem aos seus bebês? Como imaginar que a natureza tenha esquecido de prever a saída? 

A natureza não esqueceu! Fomos nós que esquecemos. Facilitar a passagem de um  bebê requer um consentimento íntimo e esquecido com toda a medicalização do parto!!!

O mundo inteiro é favor do parto normal, mas no Brasil esse contexto é velado. Nenhum médico diz na TV o contrário, porém muitos praticam diariamente isto em seu consultórios quando indicam cesáreas por tantos motivos desnecessários.

Se você não concorda com a cesariana imposta nestes consultórios procure outros profissionais habilitados e competentes para a realização do parto normal, como as obstetrizes e enfermeiras obstetras, é isso mesmo!! Na Europa quem faz o parto normal é a enfermeira obstetra!!! Justamente a formação destas enfermeiras está centrada no fisiológico e não no patológico!!!

Porém, temos que ressaltar que a assistência ao parto normal no Brasil precisa melhorar muito. Uma questão preocupante está na super-lotação dos hospitais públicos que não tem a mínima condição de abrigar humanamente uma mulher em trabalho de parto. Os profissionais por mais que tentem cuidar de forma holística, individualizada e respeitosa ficam de mãos amarradas e na maioria das vezes usam técnicas para acelerar o parto, pois tem outra mulher precisando daquele leito. O que causa mais dores, mais desconforto e mais riscos aquela mulher. Dessa forma a mulher sofre um parto traumático e violento e repassa esta experiência à outras mulheres. E por fim está formada a concepção do vilão: o parto normal!!! 

E o medo vai crescendo, o vilão cada vez mais mal falado, só que percebam... tudo começou com uma intervenção desnecessária!!! Precisamos respeitar a fisiologia do parto para que os bons exemplos sejam difundidos e propagados e que este vilão se torne o mocinho, pois este é o seu verdadeiro papel!!!

Uma em cada quatro mulheres brasileiras sofrem violência no parto segundo uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo em 2010: “Mulheres brasileiras e Gênero nos espaços público e privado”. O conceito internacional de violência no parto define qualquer ato ou intervenção direcionada à mulher ou ao seu bebê, praticado sem o consentimento explícito e informado da mulher e/ou em desrespeito à sua autonomia, integridade física e mental, aos seus sentimentos, opções e preferências. 

A integridade corporal das mulheres e seu bem estar emocional parecem não ser desfechos relevantes para a saúde pública das mães, ainda são escassas as investigações nacionais sobre a satisfação da mulher com a experiência de dar à luz. Em outra medida e perspectiva, o desrespeito e abuso cometido por parte dos profissionais de saúde contra as mulheres na gestação e no parto, foi também comprovado pelo Teste da Violência Obstétrica. Respondido por quase duas mil mulheres nos meses de março e abril de 2012, metade delas se disse insatisfeita com a qualidade do cuidado médico e hospitalar recebido para o nascimento de um filho.

Infelizmente há uma grande diferença entre dois tipos de assistência ao parto: a obstetrícia baseada em evidências e o modelo hospitalar tradicional, normalizado e comum, aquele que você vai encontrar em todo lugar: maternidades públicas, privadas e mistas, salvas raras exceções.

As pesquisas mostram que, no momento do parto, a maior necessidade das mulheres é de apoio emocional. O parto é um processo fisiológico que tem início e evolução por conta própria: o colo do útero começa a abrir, o útero começa a se contrair, o bebê começa a descer, e tudo vai ficando mais intenso, até que chega o momento do nascimento em si. Todo esse processo pode acontecer de uma maneira confortável, segura e sem intervenções. As contrações do útero, a liberação de hormônios e a passagem pela vagina favorecem o amadurecimento final do bebê, a saída dos líquidos pulmonares e sua melhor adaptação ao mundo. 

Ainda há um campo imenso para descobertas do que será do mundo com a geração das crianças nascidas de cesariana sem necessidade. Existe um centro de pesquisa na Inglaterra, fundado pelo pesquisador Michel Odent, que está estudando só isso e que já é possível considerar pelos dados prévios das pesquisas que a cesariana pode desencadear mais facilidade ao comportamento agressivo e a suscetibilidade ao uso de drogas na adolescência, por exemplo.

Portanto finalizo com a sábia frase do pesquisador Frederick Leboyer, a fim de refletirmos sobre este paradigma: PARA MUDARMOS O MUNDO PRECISAMOS MUDAR A FORMA DE NASCER!!!"

Michelle Gonçalves da Silva é Enfermeira Obstetra e realiza partos humanizados e desde sempre adora dançar a noite inteira.

E aí? Emocionante, não é?

E para embalar esse texto trouxe a música do Arnaldo Antunes cantada pela Marina Lima "Grávida"
 
 "E vou parir sobre a cidade quando a noite contrair
E quando o sol dilatar vou dar a Luz!" 
Bjs